A história econômica que aprendemos e praticamos é a história econômica da Europa. Tratávamos esse recorte como se fosse universal, como se o restante do mundo houvesse permanecido à espera de que os europeus lhe ensinassem a organizar a produção, o comércio e a distribuição da riqueza. Dediquei praticamente toda a minha vida acadêmica a combater essa distorção e o que apresento aqui é uma síntese desse esforço: uma travessia por África, mundo islâmico, Índia, China, Japão e Américas em busca dos sistemas econômicos que a narrativa dominante apagou. Começo pela África, onde a falsificação histórica foi mais violenta. Os impérios do Sahel (Gana, Mali, Songhai) organizavam tributação e redistribuição em escalas impressionantes. As rotas transaarianas conectavam ouro e sal em redes sofisticadas, com Timbuktu e Djenné como centros de saber. O colonialismo não chegou para “desenvolver” um espaço vazio, mas para destruir sistemas que funcionavam, impondo monoculturas e trabalho compulsório, criando subdesenvolvimento onde havia complexidade. No mundo islâmico está uma das tradições mais sofisticadas registradas e apagadas pelo eurocentrismo: Ibn Khaldun, no século XIV, articulou uma teoria dos ciclos civilizacionais combinando análise do trabalho, da tributação e da coesão social com rigor que nenhum europeu igualaria por séculos. Ele antecipou Adam Smith em 200 anos e sua observação de que alíquotas excessivas destroem a base produtiva antecipou em seis séculos a Curva de Laffer. A proibição da riba e a obrigatoriedade do zakat não eram preceitos puramente religiosos: eram um sistema de organização econômica fundado na justiça distributiva. A Índia produziu no Arthashastra de Kautilya, um tratado de governança econômica que antecipou em séculos as obras europeias. As tensões entre riqueza material, dever moral e aspiração espiritual geraram debates que o Ocidente tardou a formular. Na China, confucionistas, legalistas e taoístas debateram por dois milênios quanto deve intervir o Estado, antecipando questõesmque seriam exploradas por Smith, Ricardo e Keynes. O Japão demonstrou na Restauração Meiji que industrialização não era monopólio ocidental: em meio século sintetizou tradições feudais e técnicas modernas, construindo uma potência industrial por estratégia própria. Nas Américas e na Oceania, os sistemas redistributivos astecas e incas, o Kula Ring melanésio e a navegação polinésia revelam economia em seu sentido mais pleno: criação e circulação de valor em escala civilizacional. O que aprendi ao percorrer essas tradições ao largo de 23 anos de pesquisas é que a diversidade não é obstáculo ao pensamento econômico. É sua condição mais rica. Economias humanas foram organizadas segundo lógicas radicalmente distintas, frequentemente mais estáveis do que os modelos que hoje consideramos naturais. Reconhecer isso é o primeiro passo para construir futuros diferentes.

