
Original em: https://hojepr.com/caixinhas-de-surpresas/
Em algum ponto não muito distante do nosso cotidiano — talvez ali depois da padaria, antes da farmácia e logo após o sujeito que sempre diz “bom dia” às três da tarde — existe uma curiosa república: a República das Caixinhas. Não aparece no mapa, mas manda mais que muito ministério por aí. Nela, cada cidadão guarda sua essência dentro de uma caixinha. Uns guardam sonhos. Outros… bem, guardam provas — e alguns já guardam até o advogado junto.
A pequena Tatinha, por exemplo, é a ministra absoluta da ternura. Sua caixinha, presente da vovó, abriga bonequinhas fofoletes, coloridas a ponto de causar ciúmes em qualquer arco-íris mais inseguro. Cada bonequinha tem nome, profissão e até plano de carreira — uma já está “quase se aposentando”, embora tenha apenas três semanas de existência. Quando a tampa abre, sai um mundo onde tudo dá certo, inclusive casamento entre boneca e dinossauro de plástico, o que já mostra que Tatinha tem mais imaginação que muito roteirista e menos burocracia que qualquer cartório.
Já o delegado Leopoldo Durão possui uma caixinha que não combina com essa alegria toda. A dele é pesada, escura e tem um cheiro discreto de problema. Dentro: armas, munições e uma coleção de dentes que fariam qualquer dentista pedir demissão por excesso de concorrência. Leopoldo chama aquilo de “arquivo histórico”. Há quem diga que é a única coleção no mundo em que o sorriso vem separado do dono — e arquivado por ordem alfabética.
O empresário Bagre Ensaboado, sempre elegante e com aquele sorriso que parece ter sido ensaiado diante do espelho (com iluminação profissional), guarda em sua caixinha recibos, notas promissórias e cheques em branco já assinados. É praticamente uma horta onde ele cultiva dívidas alheias. Dizem que, se você espirrar perto dele, ele já aparece com um contrato para formalizar o ato e parcelar o lenço em doze vezes, com juros compostos e espirros futuros inclusos.
A arquiteta Kaká Ternura mantém uma caixinha refinada, organizada com a precisão de quem mede até o vento antes de desenhar uma varanda. Lá dentro convivem, em harmonia surpreendente, uma lapiseira Caran d’Ache, esquadros impecáveis e itens que não costumam aparecer em memorial descritivo, mas certamente influenciam a estabilidade emocional — e, quem sabe, estrutural — de qualquer projeto. Kaká defende que toda obra precisa de três pilares: estética, funcionalidade e… bom humor. E, se faltar um deles, ela resolve com criatividade — ou com uma pausa estratégica para um café bem passado e uma ideia melhor ainda.
O advogado criminalista Al Capone da Silva — cuja identidade varia conforme o cliente e a conveniência — possui uma caixinha repleta de números de protocolos e alvarás de soltura já assinados. É uma espécie de kit de emergência: quebrou a lei? Ele cola. Torceu demais? Ele desenrola. Dizem que, se a própria lei escorregar, ele já tem um habeas corpus preparado, só esperando o tombo e a manchete.
Prevenildo da Luz, astrólogo de renome autoproclamado, guarda em sua caixinha mapas astrológicos copiados das profundezas digitais. Ele garante que conversa com os astros, embora às vezes pareça que os astros estão ocupados e deixam mensagem na caixa postal. Ainda assim, seus clientes saem convencidos — afinal, quando Mercúrio está retrógrado, qualquer explicação serve, inclusive a do boleto atrasado e da sogra em trânsito cósmico.
O pecuarista Riobaldo Nelore mantém uma caixinha refrigerada. Sim, refrigerada. Dentro, frascos cuidadosamente alinhados com material genético bovino “adquirido” de maneira criativa. Ele chama de investimento; o veterinário chama de sumiço misterioso; e as vacas, se pudessem opinar, talvez pedissem um advogado — de preferência o da caixinha anterior, com desconto por volume.
Rapidão de Liso, banqueiro e empreiteiro, nem disfarça: sua caixinha é praticamente um cofre com pretensões internacionais. Lá dentro estão contratos, aditivos e cifras que fizeram intercâmbio na Suíça e voltaram falando outro idioma — principalmente o financeiro, que ninguém entende, mas todo mundo paga. Sua filosofia é simples: papel aceita tudo, e a conta também — desde que seja dos outros.
E então surge o Coelhinho Rebelde da Páscoa. Diferente dos demais, sua caixinha continha algo quase escandaloso: uma lista de entrega de ovos de Páscoa para um asilo de idosos. Chocolate, carinho e um pouco de dignidade embrulhados em papel colorido. Um ato de bondade tão fora de moda que imediatamente levantou suspeitas — e invejas administrativas. Foi delatado. Incriminado.
Preso.
A acusação? Ninguém explicou direito. Talvez excesso de açúcar sem autorização. Talvez distribuição irregular de alegria. Talvez, o mais grave de todos os crimes: boa intenção sem nota fiscal nem margem de lucro.
O fato é que, depois disso, a República das Caixinhas entrou em alerta. Tatinha fechou sua caixinha com cuidado redobrado, como quem protege um tesouro ameaçado pelo mundo adulto — e seus regulamentos.
O delegado colocou mais uma fechadura na sua, por garantia… e por hábito.
O empresário revisou contratos, acrescentando cláusulas até para sentimentos não declarados.
O advogado afiou argumentos, já prevendo recurso contra qualquer eventual gentileza.
O astrólogo consultou Plutão, que não respondeu — mas deixou um silêncio cheio de significado (ou de falta de sinal).
E Kaká Ternura? Ah, Kaká Ternura fez algo ainda mais perigoso: redesenhou a própria caixinha. Acrescentou janelas. Ampliou a entrada de luz. Criou um pequeno jardim interno — coisa simples, mas suficiente para arejar ideias e suspeitas.
E, dizem — apenas dizem — que ela passou a deixar a tampa entreaberta de propósito. Não por descuido, mas por teimosia estética: “Caixa que não respira vira cofre”, costuma afirmar, enquanto ajusta o esquadro e desconfia de qualquer estrutura sem leveza.
Rapidão de Liso… bem, Rapidão já estava tranquilo — sua caixinha sempre esteve à prova de surpresas, especialmente as desagradáveis e, sobretudo, as honestas.
Mas, desde o episódio do coelhinho, há um detalhe curioso: algumas pessoas juram ter visto, em noites mais silenciosas, pequenas luzes escapando da caixinha de Kaká Ternura. Nada chamativo — apenas um brilho discreto, desses que não dão lucro, mas iluminam o suficiente para incomodar quem prefere a escuridão bem contabilizada.
E assim segue a República das Caixinhas, onde cada um guarda o que pode, o que quer e, principalmente, o que não gostaria que fosse aberto em público.
Porque, no fim das contas, o problema nunca foi a caixinha.
É quem anda mexendo nelas — ou pior — quem resolveu deixá-las abertas.

