O assédio que ninguém vê. Por Redação 

Há formas de violência que não deixam marcas visíveis. Não produzem escândalos, não geram processos imediatos, não aparecem em gravações. Ainda assim, são profundamente eficazes. Operam no silêncio — e, por isso mesmo, se perpetuam.

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O assédio que ninguém vê
Assédio institucional opera no silêncio, naturaliza exclusões e transforma invisibilidade em método, alerta a jurista Maristela Basso em artigo de opinião | Freepik

 

Original em: https://arenadenoticias.com.br/noticia/159476/o-assedio-que-ninguem-ve

Durante muito tempo, aprendemos a identificar o assédio em suas formas mais evidentes: o assédio moral, feito de humilhações reiteradas; ou o assédio psicológico, que corrói a confiança e a estabilidade emocional. Mais recentemente, o debate público passou a reconhecer também formas de discriminação mais sutis, ligadas à origem, ao sotaque, à trajetória — aquilo que não se diz, mas se faz sentir.

Mas há uma dimensão ainda menos visível — e talvez mais decisiva: o assédio institucional.

Não se trata de um ato isolado, nem de um agressor claramente identificável. Trata-se de um padrão. Um modo de funcionamento. Um ambiente que, sem precisar excluir formalmente, torna certos indivíduos permanentemente periféricos.

O mecanismo é simples — e sofisticado. Não há proibição, mas também não há convite. Não há rejeição explícita, mas há silêncio. Não há desqualificação aberta, mas há invisibilidade. O resultado é o mesmo: trajetórias interrompidas, vozes desconsideradas, talentos subaproveitados.

Em espaços altamente hierarquizados e simbólicos, como o universitário ou o jurídico, esse tipo de prática ganha uma camada adicional de legitimidade. Tudo se apresenta como resultado de mérito. Mas o que se observa, muitas vezes, é outra lógica: a reprodução de círculos fechados, baseados em pertencimento, redes e reconhecimento mútuo.

Aqui, a reflexão de Pierre Bourdieu permanece atual: não basta competência técnica. O acesso pleno a determinados espaços depende de capital simbólico — isto é, de ser reconhecido como alguém que “pertence”.

O problema é que esse reconhecimento não é distribuído de forma neutra.

Quem vem de fora — de outras regiões, outras formações, outras trajetórias — frequentemente precisa provar mais, insistir mais, resistir mais. E, ainda assim, muitas vezes encontra uma barreira que não se declara, mas se impõe.

É nesse ponto que o assédio institucional se revela: não como um desvio, mas como uma engrenagem. Não como exceção, mas como rotina.

E talvez essa seja sua característica mais inquietante: ele dispensa intenção. Não depende de má-fé individual. Basta a repetição de práticas, a manutenção de padrões, a naturalização de exclusões.

Por isso, combatê-lo exige mais do que identificar culpados. Exige nomear o fenômeno.

Enquanto continuarmos tratando essas experiências como episódios isolados — ou, pior, como percepções subjetivas —, permaneceremos incapazes de enfrentar o problema em sua dimensão real.

Dar nome ao assédio institucional é, portanto, um primeiro gesto de ruptura.

Porque há violências que não gritam.

Mas organizam o silêncio.

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