
Os partidos políticos autênticos não podem se apresentar ao povo apenas como uma sigla. Por baixo desta deve haver algum conteúdo objetivo. Infelizmente, a esmagadora maioria dos 30 partidos brasileiros não têm sequer uma proposta política para apresentar à sociedade, inclusive em épocas de eleições. Nestas prevalecem a demagogia barata e os anúncios repetitivos de televisão, pagos com recursos públicos e desviados em benefício próprio pelo Congresso a fim de financiar uma corrente contínua de reeleições para a Câmara e o Senado.
Com isso as eleições, que poderiam ser, como nas democracias avançadas, um momento de renovação da representação política, tendem quase sempre apenas para confirmar nos cargos velhos oportunistas cujos mandatos comprados servem exclusivamente para obterem benefícios pessoais ou intermediar favores para grandes magnatas. O banqueiro bandido Daniel Vorcaro, por exemplo, para usar um exemplo recente, literalmente comprou por R$ 500 mil por mês o senador Ciro Nogueira, presidente do PP e ex-Ministro Chefe da Casa Civil de Bolsonaro, para obtenção no Congresso aumento do valor do Fundo Garantidor de Crédito.
A imprensa está cheia de outros casos semelhantes que vêm sendo investigados aos montes pela Polícia Federal. Entretanto, se fôssemos perder tempo para denunciar os escândalos da elite política atual em suas relações com a classe dominante, perderíamos a perspectiva do futuro para a Nação. E esse futuro, se os trabalhadores não inverterem a relação de forças com as oligarquias, significa que continuarão sendo estrangulados pelo poder econômico delas, que tomaram o comando doo Estado, e será cada vez mais estreitado o espaço que ainda têm na Sociedade para sobreviverem.
Estou analisando essa situação, exaustivamente, no artigo O Mundo do Trabalho, publicado na revista Mutirão Solar, e voltarei ao tema oportunamente, em face da importância crucial que tem para o futuro do Brasil e do mundo. É que o estreitamento do espaço para os trabalhadores comuns na sociedade capitalista não tem volta. Em algum momento do futuro esse espaço, na forma de emprego de massa, industrial ou agrário, virtualmente desaparecerá, em função do rápido avanço da tecnologia.
Há fatores institucionais que, no Brasil, devido ao enfraquecimento político do Trabalho em face do Capital, também contribuírão para expulsar os trabalhadores do mercado de trabalho formal, relegando-os ao subemprego, à marginalização social, ao falso empreendedorismo individual e, no limite, à indigência – que afeta principalmente os inativos. Diante disso, o caminho de sobrevivência digna dos trabalhadores passa pela ocupação do espaço do próprio Capital, através da organização de Arranjos Produtivos Locais, Territoriais e Vocacionais.
O Arranjo é um tipo de Sociedade Anônima integrada por trabalhadores e dirigida diretamente por eles de forma democrática, e seguindo as regras da Comissão de Valores Mobiliários. Pode referir-se a qualquer atividade econômica em que os trabalhadores tenham experiência, ou para a qual possam contratar consultorias ou assessorias especializadas. Nesse ponto, seriam autônomas e relativamente independentes de governos, exceto no passo inicial. O trabalho cooperativo lhe garantiria o máximo de produtividade e de lucro, pois não haveria patrão para apossar-se deste. Ou são Arranjos Produtivos Locais ou Territoriais (APLs ou APTs), ou ainda Arranjos Produtivo Vocacionais (APVs), neste caso reunindo áreas afins.
Entendo que esta será a sociedade do futuro. Não por voluntarismo ou opção política. Mas porque os trabalhadores, sendo a grande maioria em qualquer sociedade, não teriam outros meios de sobrevivência a não ser juntar-se em algum Arranjo rural ou urbano. Pela marcha da História, encontrariam no Arranjo uma proposta face de vida digna em face dos desafios existenciais que estão sendo colocados diante deles: por um lado, resgatariam, pelo socialismo , a utopia de uma sociedade justa e de igualdade; por outro lado, consolidariam o Trabalho como a vanguarda produtiva concreta dessa sociedade.
Essa situação pode ser configurada, no plano político, numa Aliança Social Trabalhista, reunindo partidos e entidades inspiradas no socialismo e no trabalhismo. Se os partidos brasileiros atuais, com poucas exceções, não têm um projeto nacional, a Aliança sugerida poderá apresentar à Sociedade a proposta do Social Trabalhismo. Será a alvorada de uma Nova Era e de uma nova realidade que abrirão os horizontes futuros e se constituirão como alicerce de uma nova Sociedade onde desaparecerá a própria luta de classes, pelo formato empresarial do APL, onde o trabalhador é dono dos resultados de seu próprio Trabalho.
É providencial que diante disso tenhamos um Lula na Presidência, tendo em vista seu passado como o maior líder histórico do sindicalismo brasileiro. É que alguns dos líderes naturais dos Arranjos poderão ser justamente os dirigentes sindicais, já que o Sindicato é a porta de entrada no mercado de trabalho quando alguém procura emprego pela primeira vez. O mesmo Sindicato, porém, se converte em porta de saída, quando se é despedido pela empresa diante do avanço da tecnologia. O trabalhador terá então que buscar outro lugar onde trabalhar. Seu melhor orientador, nesse caso, seria alguém originário do próprio movimento sindical que participasse de uma rede nacional online de Arranjos Produtivos.

