A Geopolítica do Petróleo, o Dilema da Margem Equatorial e a Ilusão do Passaporte para o Futuro: Uma Análise da Economia Política do Pré-Sal e da Soberania Energética Nacional

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Autoria e Organização Acadêmica: Análise Teórica e Crítica sobre a Economia Política do Petróleo no Brasil Base Teórico-Empírica: Análise integrada das formulações do Prof. Ildo Sauer (Instituto de Energia e Ambiente da USP – IEE/USP, ex-Diretor de Gás e Energia da Petrobras) publicadas na Revista Princípios (n. 170) e intervenções acadêmicas correlatas sobre a transição energética, a exploração da Margem Equatorial e a apropriação estatal das rendas petrolíferas. Resumo Executivo: Este documento apresenta um estudo exaustivo sobre a economia política da energia, a trajetória da exploração petrolífera no Brasil — com ênfase no Pré-sal e na nova fronteira da Margem Equatorial — e o debate sobre a transição energética global. Analisa-se a natureza teórica da renda petroleira, a distribuição federativa e privada do excedente do Pré-sal, o mito do “passaporte para o futuro”, o rito técnico de avaliação exploratória na Foz do Amazonas e os imperativos de soberania nacional frente às pressões geopolíticas e ambientais do Sul Global. 1. Introdução e Contexto Histórico: A Energia como Vetor da Produtividade Social do Trabalho A transição entre os modos de produção ao longo da história da humanidade esteve inexoravelmente ligada à forma como as sociedades organizaram a apropriação, a conversão e o uso do trabalho útil e da energia. A Primeira Revolução Industrial, desencadeada no final do século XVIII, representou uma ruptura tectônica com o regime energético tradicional fundado no trabalho muscular (humano e animal), na tração eólica, hídrica e na biomassa tradicional (lenha). O surgimento da máquina a vapor alimentada pelo carvão mineral permitiu desvincular a produção industrial dos limites geográficos e sazonais da natureza, inaugurando uma era de expansão sem precedentes das forças produtivas capitalistas. Contudo, foi ao longo da Segunda Revolução Industrial, entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, que o capitalismo atingiu sua escala plenamente planetária e oligopolista. Dois novos vetores energéticos remodelaram a civilização industrial: a eletricidade e os combustíveis líquidos derivados do petróleo. A eletrificação permitiu a reorganização flexível do processo produtivo nas fábricas (motorização individual de máquinas), enquanto o petróleo revolucionou a logística e os transportes globais por meio do motor de combustão interna, além de servir de matéria-prima para a indústria petroquímica (plásticos, fertilizantes, farmacêutica e sintéticos). A centralidade do petróleo na matriz energética global não decorre de uma escolha contingente ou meramente ideológica, mas das suas características físico-químicas ímpares. O petróleo cru possui uma densidade volumétrica e mássica de energia extraordinariamente elevada, aliada a uma fluidez que facilita o transporte contínuo e de baixo custo via oleodutos e navios petroleiros. Mais fundamentalmente sob a ótica da economia política, a extração de petróleo em jazidas convencionais de alta vazão proporciona uma elevada Taxa de Retorno Energético sobre Energia Investida (EROI – Energy Return on Investment ). Isso significa que uma fração mínima da energia contida no hidrocarboneto é consumida para sua própria extração e refino, liberando uma imensa quantidade de energia líquida para impulsionar o restante da economia nacional e mundial. No Brasil, a construção da infraestrutura energética moderna foi um dos pilares do processo de industrialização por substituição de importações e do projeto nacional-desenvolvimentista. A criação do Conselho Nacional do Petróleo (CNP) em 1938 e a promulgação do Monopólio Estatal do Petróleo com a fundação da Petrobras em 1953 (Lei nº 2.004/1953), sob a mobilização popular da campanha “O Petróleo é Nosso”, consubstanciaram o entendimento estratégico de que o controle sobre o subsolo e sobre a cadeia de hidrocarbonetos era condição sine qua non para a soberania nacional, a segurança energética e a autonomia geopolítica. 2. Fundamentos da Economia Política do Petróleo: As Categorias da Renda da Terra e do Subsolo Para desvelar os conflitos de classe e as disputas federativas e internacionais em torno do petróleo, é imprescindível recorrer às categorias teóricas da Economia Política Clássica (David Ricardo) e da Crítica da Economia Política Marxista (Karl Marx, especialmente na Seção V do Livro III d’ O Capital ), estendidas e aplicadas à indústria extrativa e ao subsolo. O preço de mercado do barril de petróleo não é determinado meramente pelos seus custos diretos de produção (custos de busca, perfuração, desenvolvimento e operação, somados à taxa média de lucro do capital investido). Devido à finitude das jazidas, à variabilidade das condições geológicas e ao controle sobre a propriedade da terra e do subsolo, surgem excedentes econômicos extraordinários denominados rendas do subsolo ou rendas petrolíferas . 2.1. Tipologia Teórica das Rendas Petrolíferas ● Renda Diferencial I (por Atributos Naturais e Geográficos): Resulta das variações nas qualidades físicas e geográficas intrínsecas dos reservatórios. Campos situados em lâmina d’água rasa, com alta porosidade e permeabilidade da rocha reservatório, e que produzem óleos leves (alto grau API e baixo teor de enxofre e metais pesados), possuem custos de extração e refino substancialmente menores do que campos com óleos pesados ou localizados em áreas remotas. A diferença entre o custo de produção do campo mais desfavorável (necessário para atender à demanda global) e o custo reduzido do campo favorecido gera a Renda Diferencial I. ● Renda Diferencial II (por Intensificação de Capital e Tecnologia): Decorre da aplicação sucessiva de investimentos de capital e tecnologias avançadas em uma mesma área produtivo-geológica. No setor petrolífero, expressa-se no emprego de métodos de recuperação avançada de petróleo (EOR – Enhanced Oil Recovery ), perfuração direcional e horizontal extrema, imageamento sísmico 3D/4D de alta resolução e automação de subsistemas submarinos. Esses aportes elevam o fator de recuperação do reservatório e reduzem o custo unitário por barril extraído. ● Renda Absoluta: Origina-se do monopólio da propriedade do subsolo exercido pelo Estado ou por proprietários privados. O proprietário impõe uma barreira à livre circulação de capital, exigindo um pagamento (royalties e participações) para permitir o acesso ao recurso natural, impedindo que o preço do petróleo caia ao seu valor estrito ou preço de produção marginal. No ordenamento jurídico brasileiro, a Carta Magna de 1988 (Art. 20, inciso IX) estabelece expressamente que os recursos minerais, inclusive os do subsolo e da plataforma continental, são bens da União. ● Renda de Monopólio: Constitui a categoria de maior relevância na geopolítica contemporânea do petróleo. É gerada quando o preço internacional do petróleo é fixado significativamente acima do custo marginal de produção das jazidas mais dispendiosas e acima do custo de produção dos seus substitutos energéticos diretos. Essa renda é sustentada e gerida por meio da ação coordenada de cartéis estatais e oligopólios internacionais — notadamente a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados (OPEP+) —, que regulam os volumes de oferta global para manter cotações elevadas e capturar excedentes financeiros massivos das economias consumidoras. Categoria de Renda Origem Teórico-Geológica Mecanismo de Captura na Indústria Petrolífera Destinatários Primários Renda Diferencial I Qualidade do óleo (API) e facilidade natural de acesso ao reservatório. Menor custo operacional (*lifting cost*) por barril produzido. Operadoras, Estado via participações e acionistas. Renda Diferencial II Inovação tecnológica e investimentos de capital intensivo. Aumento do fator de recuperação e ganho de escala operacional. Empresas operadoras e fornecedores de tecnologia subsea. Renda Absoluta Monopólio legal/jurídico da propriedade do subsolo. Cobrança obrigatória de Royalties e Bônus de Assinatura. Ente Soberano (União, Estados e Municípios no Brasil). Renda de Monopólio Gestão de oferta global e precificação baseada no custo dos substitutos. Margem entre o preço OPEP/Brent e o custo global marginal. Estados membros da OPEP+, petroleiras globais e Fundos Soberanos. 3. O Balanço do Pré-Sal: Distribuição Assimétrica e a Promessa Frustrada do “Passaporte para o Futuro” A descoberta do Pré-sal na Bacia de Santos e Campos, anunciada entre 2006 e 2007, representou o maior marco geológico e geoeconômico da história da indústria petrolífera sul-americana. As acumulações localizadas sob uma camada de sal de até 2.000 metros de espessura, em lâminas d’água superiores a 2.000 metros, revelaram-se reservatórios de escala gigantesca, contendo óleo leve de altíssima qualidade comercial e elevada produtividade por poço (frequentemente ultrapassando 30 a 50 mil barris de óleo equivalente por dia por poço individual). Naquele contexto, articulou-se no debate público o discurso de que o Pré-sal constituiria o “passaporte para o futuro” do Brasil. Prometia-se que a renda gerada pelo excedente petrolífero seria o motor para a erradicação da pobreza, a universalização da educação pública de qualidade, o salto tecnológico nacional e a criação do Fundo Social (Lei nº 12.351/2010). Contudo, duas décadas após as primeiras descobertas, a análise crítica e objetiva dos dados demonstra que o modelo de exploração e apropriação do Pré-sal resultou na queima, na pulverização e na captura financeira desarmada dessa riqueza, frustrando seu potencial transformador estrutural. 3.1. Estrutura de Custos e Magnitude do Excedente no Pré-Sal Graças ao avanço engenho-tecnológico da Petrobras e do parque de fornecedores locais, os custos de descoberta e extração ( finding and lifting costs ) no Pré-sal foram reduzidos a patamares impressionantes, oscilando entre US$ 8 e US$ 12 por barril . Em cenários em que o preço do barril no mercado internacional (tipo Brent) é negociado na faixa de US$ 70 a US$ 90, o Pré-sal gera uma renda petrolífera líquida de aproximadamente US$ 60 a US$ 80 por barril produzido . Multiplicado por uma produção nacional que ultrapassa 3,5 milhões de barris por dia (sendo mais de 75% oriundos do Pré-sal), trata-se de um excedente financeiro anual da ordem de dezenas de bilhões de dólares. 3.2. Os Três Vetores da Captura e Desperdício do Excedente Para onde foi essa renda monumental? A análise teórica e empírica demonstra que o excedente do Pré-sal foi drenado por três mecanismos centrais: 1. Distorção e Concentração Federativa dos Royalties: A legislação aprovada para a divisão dos royalties e participações especiais (alíquotas que somam cerca de 15% do valor bruto da produção) concentrou a esmagadora maioria dos recursos em um punhado de estados e municípios produtores ou confrontantes — com destaque para o Estado do Rio de Janeiro e municípios como Maricá, Macaé, Niterói e Campos dos Goytacazes. Mais de 70% a 80% das verbas estaduais e municipais foram retidas nessa faixa litorânea. O resultado prático foi o descumprimento do mandamento constitucional (Art. 20 da CF), que define o subsolo como propriedade de toda a Nação. Enquanto esses municípios viram seus orçamentos explodirem sem que isso se traduzisse em elevação estrutural e sustentável do IDH ou na diversificação da base produtiva local, a grande maioria dos municípios brasileiros no interior do Nordeste, Norte, Centro-Oeste e Sul permaneceu privada desses recursos. 2. Financeirização da Parcela Estatal e Serviço da Dívida: A parcela da renda que efetivamente ingressou no Tesouro Nacional por meio de tributos federais (PIS/Cofins, IRPJ, CSLL) e pela fatia governamental nos dividendos da Petrobras não foi canalizada prioritariamente para investimentos produtivos de longo prazo, infraestrutura ou para o Fundo Social da Educação e Saúde. Sob a lógica das metas de superávit primário e da manutenção de taxas de juros reais extremamente elevadas praticadas pelo Banco Central do Brasil, esses recursos foram em grande medida capturados pelo sistema financeiro para o pagamento de juros e encargos da dívida pública federal. 3. Vazamento Internacional de Dividendos e Desinvestmento Estrutural: A alteração no estatuto e na política de dividendos da Petrobras — exacerbada a partir de 2016 e consolidada pela adoção do Preço de Paridade de Importação (PPI) — transformou a empresa em uma “máquina de pagar dividendos” de curto prazo. Uma vez que mais de 60% do capital votante e total da Petrobras negociado em bolsa pertence a acionistas privados estrangeiros (via ADRs na Bolsa de Nova York – NYSE) e a fundos de investimento internacionais (como BlackRock , Vanguard e State Street ), dezenas de bilhões de reais em rendas de monopólio extraídas dos consumidores brasileiros através do preço dos combustíveis foram transferidos para o exterior. Paralelamente, petroleiras multinacionais privadas (Shell, Equinor, TotalEnergies, CNOOC, CNPC) passaram a controlar mais de 35% da produção do Pré-sal via leilões de concessão e partilha, remetendo seus lucros para suas sedes no Norte Global. +———————————————————————————–+ | MECANISMOS DE DRENAGEM DO EXCEDENTE DO PRÉ-SAL +———————————————————————————–+ | 1. Concentração Localista —> Royalties retidos em poucos municípios costeiros | | 2. Financeirização Estatal —> Impostos drenados para o serviço da dívida pública| | 3. Privatização da Renda —> Dividendos recordes para acionistas da NYSE/B3 | | 4. Estrangeirização Direta —> Multinacionais controlam >35% da produção | | +———————————————————————————–+ | RESULTADO: Fracasso na constituição do Fundo Soberano e ausência de reindustrialização| +———————————————————————————–+ 4. A Nova Fronteira: A Margem Equatorial e o Debate Sobre a Foz do Amazonas Com o declínio natural previsto para os campos maduros da Bacia de Campos e o pico de produção ( peak oil ) do Pré-sal projetado para a década de 2030, a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia voltaram suas atenções para a **Margem Equatorial brasileira**. Esta vasta fronteira exploratória estende-se ao longo da costa norte do país, do Estado do Rio Grande do Norte ao Amapá, sendo dividida em cinco bacias sedimentares: Potiguar, Ceará, Barreirinhas, Pará-Maranhão e Foz do Amazonas. A atenção geopolítica e corporativa global sobre a Margem Equatorial intensificou-se dramaticamente após as monumentais descobertas feitas pela ExxonMobil na Bacia Guiana-Suriname, em áreas de geologia análoga à costa do Amapá. Estimativas preliminares apontam que o complexo da Guiana já acumula mais de 11 bilhões de barris de óleo equivalente em reservas recuperáveis, transformando a Guiana em um dos países de maior crescimento econômico do mundo. 4.1. O Rito Técnico e Científico da Avaliação Exploratória O debate público recente em torno da perfuração do poço exploratório denominado *Morpho* no bloco FZA-M-59, localizado em águas ultraprofundas na Bacia da Foz do Amazonas (a cerca de 175 km da costa do Amapá e a mais de 500 km da foz hidrográfica do Rio Amazonas), tem sido marcado por frequentes imprecisões conceituais. É fundamental restabelecer o rigor técnico sobre as etapas de desenvolvimento de uma província petrolífera: ● 1ª Etapa – Pesquisa Geofísica e Sísmica 2D/3D: Mapeamento das estruturas subsuperficiais para identificação de potenciais armadilhas (trapos) e rochas geradoras e reservatório. ● 2ª Etapa – Perfuração Exploratória de Teste (Poço de Descoberta): Perfuração de um único poço para comprovação da presença de hidrocarbonetos e coleta de fluidos e amostras de rocha. A autorização para esta perfuração não significa autorização para produção de petróleo. ● 3ª Etapa – Perfuração de Poços de Extensão e Delimitação: Em caso de descoberta, perfuram-se poços adicionais a distâncias calculadas para mapear a geometria e a continuidade do reservatório. ● 4ª Etapa – Plano de Avaliação de Descoberta (PAD): Submissão de relatórios detalhados à ANP para estimar o Volume de Óleo no Local ( STOIIP – Stock Tank Oil Initially In Place ) e os volumes recuperáveis. ● 5ª Etapa – Declaração de Comercialidade e Licenciamento de Produção: Apenas após a confirmação da viabilidade econômica e o cumprimento de rigorosos Estudos de Impacto Ambiental e Relatórios de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) é que se submete o Plano de Desenvolvimento (PD), levando de 4 a 6 anos entre a descoberta e a instalação das unidades definitivas de produção (plataformas do tipo FPSO). 4.2. Soberania Energética vs. Dogmatismo “Obscurantista” A controvérsia institucional entre o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Petrobras sobre a concessão da Licença de Operação para a Avaliação Pré-Operacional (APO) na Foz do Amazonas coloca em pauta questões centrais para o planejamento estratégico do Estado brasileiro. Do ponto de vista da soberania nacional e da economia política da energia, recusar-se a realizar a perfuração exploratória para dimensionar o potencial e a existência de riquezas no subsolo territorial do país configura uma postura obscurantista e prejudicial ao interesse público. Conhecer a magnitude das reservas energéticas da Nação é um imperativo de segurança soberana. Ter a informação detalhada sobre o volume de recursos existentes não obriga o país a extraí-los imediatamente de forma predatória, mas concede ao Estado brasileiro o poder soberano e informado de planejar seu futuro e sua transição energética. Caso o Brasil decida abdicar unilateralmente de pesquisar e produzir na Margem Equatorial enquanto o mercado internacional continuar a consumir mais de 100 milhões de barris de petróleo por dia, o impacto ambiental global não será reduzido em absolutamente nada. A única consequência prática será a transferência direta da renda de monopólio e dos empregos qualificados para países vizinhos — como a Guiana, Suriname e Guiana Francesa —, além dos produtores do Oriente Médio, enquanto o Brasil voltará à condição histórica de importador líquido de derivados de petróleo a preços cotados em dólar. 5. A Geopolítica Mundial do Petróleo, o Papel do BRICS e a Transição Energética no Sul Global O cenário energético global contemporâneo é atravessado por profundas assimetrias entre os países centrais do Norte Global (membros da OCDE) e os países em desenvolvimento do Sul Global. O debate sobre a transição energética e a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) transformou-se em uma nova arena de disputa geopolítica, econômica e comercial. 5.1. A Incoerência da Narrativa Hegemônica do Norte Global Os países industrializados do Norte construíram sua opulência material, sua infraestrutura urbana e suas bases tecnológicas ao longo de dois séculos de intensa queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), sendo responsáveis pela imensa maioria do passivo ambiental e do estoque de carbono acumulado na atmosfera. Atualmente, sob o pretexto da emergência climática, esses mesmos países tentam impor aos países em desenvolvimento do Sul Global regras rígidas de descontinuidade imediata do uso de hidrocarbonetos, bloqueando o financiamento internacional para projetos extrativos nesses territórios. Entretanto, essa retórica revela-se profundamente hipócrita quando confrontada com a práxis geopolítica. Diante da crise de abastecimento energético gerada pelos conflitos no Leste Europeu, países europeus reativaram usinas a carvão mineral altamente poluentes e expandiram contratos de compra de Gás Natural Liquefeito (GNL) de alta pegada de carbono proveniente do *fracking* norte-americano. Simultaneamente, os Estados Unidos alcançaram marcas históricas de produção diária de petróleo e gás, consolidando-se como os maiores produtores mundiais. 5.2. O Papel do BRICS e do Financiamento do Desenvolvimento No âmbito da diplomacia multilateral, o bloco dos BRICS (ampliado) assume um papel central na reconfiguração da arquitetura energética global. Agrupando os maiores produtores do mundo (como Arábia Saudita, Rússia, Emirados Árabes Unidos e Irã) e alguns dos maiores consumidores globais (como China e Índia), o bloco detém a capacidade objetiva de formular mecanismos alternativos de comercialização de energia em moedas locais, contornando a hegemonia do petrodólar e enfraquecendo as sanções unilaterais do Norte Global. Para os países em desenvolvimento, o petróleo não deve ser encarado como um vilão em abstrato, mas como o principal gerador de receita e excedente financeiro capaz de financiar a própria superação do subdesenvolvimento. Os **Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU** exigem investimentos maciços não apenas em ação contra a mudança global do clima (ODS 13), mas primariamente na erradicação da pobreza (ODS 1), na erradicação da fome (ODS 2), na saúde de qualidade (ODS 3), na educação de qualidade (ODS 4), na água potável e saneamento (ODS 6) e na indústria e infraestrutura (ODS 9). Sem o aproveitamento soberano das rendas petrolíferas para estruturar fundos públicos robustos, o Sul Global continuará dependente de empréstimos e da caridade condicionada das instituições financeiras ocidentais, perpetuando o ciclo do subdesenvolvimento e da dependência tecnológica. 6. Propostas para um Novo Modelo de Gestão do Petróleo e Financiamento da Transição Soberana Para romper com a lógica expropriatória que marcou o aproveitamento do Pré-sal e evitar que a Margem Equatorial repita os mesmos erros históricos, é indispensável refundar o modelo jurídico, regulatório e operacional da indústria petrolífera no Brasil. O petróleo deve ser gerido sob o primado do **Artigo 20 da Constituição Federal**, servindo como patrimônio inalienável do povo brasileiro. 6.1. Reestruturação do Modelo de Contratação e Operação ● Contratação Direta da Petrobras pela União: Extinção do regime de leilões (seja de Concessão ou de Partilha de Produção) para as áreas estratégicas e para novas fronteiras como a Margem Equatorial. A União deve contratar diretamente a Petrobras sob o regime de prestação de serviços para a exploração e produção do subsolo público. ● Remuneração Justa pelos Custos Operacionais e Capital Investido: A Petrobras deve ser ressarcida de maneira transparente e justa por todos os seus custos auditados de exploração, desenvolvimento e operação (sua taxa interna de retorno e custos operacionais), acrescidos de uma margem de lucro compatível com a função de uma empresa estatal de desenvolvimento. ● Apropriação Estatal de 100% da Renda Absoluta e de Monopólio: Todo o excedente econômico gerado entre o custo real de produção da Petrobras e o valor de venda do petróleo deve reverter integralmente ao Tesouro Nacional, ficando sob a propriedade direta do Estado brasileiro. 6.2. Criação do Fundo Soberano de Transformação Energética e Social A totalidade da renda de monopólio e das participações estatais capturadas pela União deve ser depositada em um **Fundo Soberano Nacional de Transformação**, blindado contra a sanha da especulação financeira e contra o pagamento de juros da dívida pública. Este fundo terá suas metas e destinações vinculadas por lei a três pilares fundamentais: 1. Reindustrialização e Transição Energética Soberana: Financiamento do desenvolvimento de tecnologias limpas nacionais, como a produção em escala industrial de hidrogênio verde, a fabricação de equipamentos para geração eólica *offshore* e solar fotovoltaica, a ampliação da malha ferroviária e cicloviária nacional, e a eletrificação total do transporte público urbano. 2. Infraestrutura Social e Universalização de Direitos: Aporte direto e redistributivo para a educação pública básica e superior, ciência e tecnologia, Sistema Único de Saúde (SUS), saneamento básico universal e programas de reforma agrária e agroecologia. 3. Redistribuição Federativa Equitativa: Repasse dos royalties e dividendos estatais com base em critérios populacionais e de equidade socioeconômica (priorizando estados e municípios com menores índices de IDH e infraestrutura básica), eliminando as distorções que privilegiam exclusivamente uma minoria de municípios costeiros. 7. Conclusão: A Sintese Dialética Entre Soberania, Desenvolvimento e Sustentabilidade A encruzilhada diante da qual o Brasil se encontra na terceira década do século XXI não pode ser resolvida por falsos dilemas que opõem a proteção ambiental à soberania energética e ao desenvolvimento socioeconômico. A transição para uma economia descarbonizada é uma necessidade planetária real, mas o caminho para alcançá-la no Sul Global não pode reproduzir a lógica do neocolonialismo verde ou da dependência tecnológica. A pesquisa e o eventual aproveitamento responsável dos recursos hidrocarbonetos da Margem Equatorial — sob o mais rigoroso controle ambiental estatal e sob a liderança técnica inquestionável da Petrobras — constituem o último grande vetor de alavancagem financeira e tecnológica de que o Brasil dispõe no presente século. A recusa dogmática ao conhecimento do subsolo não preserva a Amazônia; apenas empobrece o Estado, retira empregos do povo nortista e transfere poder geopolítico para petroleiras internacionais. O verdadeiro “passaporte para o futuro” do Brasil não virá da mera extração e exportação de petróleo cru operada por multinacionais para a distribuição de dividendos em Wall Street. O futuro soberano do país depende da capacidade política e histórica do povo brasileiro e de suas instituições em assumir o controle pleno sobre a totalidade da renda petrolífera nacional, transformando o hidrocarboneto finito do subsolo em riqueza permanente, justiça social, ciência autônoma e infraestrutura renovável para as presentes e futuras gerações

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