
A trajetória de Augusto Cury é um exemplo emblemático de como determinadas narrativas ganham força no Brasil contemporâneo — não pela sua consistência científica, mas pela sua utilidade ideológica.
Sob o verniz de “profundidade” psicológica e linguagem pseudocientífica (travestida de acessível), construiu-se uma obra que promete libertar o indivíduo — mas que, na prática, o isola.
Não se trata apenas de literatura de autoajuda, trata-se de um tipo específico de discurso que transforma problemas complexos em dilemas individuais:
- Ansiedade, depressão, angústia diante da vida — tudo é reduzido a uma questão de “gestão da mente”, como se o sofrimento humano pudesse ser resolvido por meio de fórmulas internas, descoladas da realidade material;
- Um tipo de abordagem que ignora deliberadamente fatores estruturais como desigualdade, precarização do trabalho, insegurança econômica e ausência de políticas públicas robustas — deslocando o foco da crítica do sistema para o indivíduo.
Se a pessoa sofre, a responsabilidade é dela. Se “não venceu”, faltou disciplina emocional. E assim por diante. Ou seja, uma narrativa confortável para quem deseja manter tudo como está e converge para o conceito de meritocracia.
Não por acaso, esse tipo de discurso dialoga com o ambiente político que se consolidou no Brasil nos últimos anos, especialmente em torno de Jair Bolsonaro:
- Um ambiente que rejeita explicações estruturais;
- Despreza o papel do Estado;
- E aposta na ideia de que cada indivíduo é o único responsável pelo seu destino — mesmo em um país profundamente desigual.
A chamada “psicologia” de Cury, sem validação robusta na Psicologia, cumpre assim um papel funcional:
- Oferecer uma “sensação de conforto emocional imediato” ao mesmo tempo em que desarma qualquer impulso de transformação coletiva;
- Uma espécie de anestesia social sofisticada — que “diz aliviar a dor”, mas preserva (intacta) a doença.
Além de tudo isso, se utiliza de uma estratégia clara de construção de autoridade:
- Termos técnicos, teorias próprias e uma constante associação à figura de especialista, criando a falsa impressão de rigor científico;
- Mas, na verdade, o que se tem é apenas uma retórica bem construída, pensada para convencer incautos – e que não se sustenta nos critérios acadêmicos mais básicos.
Num país que precisa urgentemente reconstruir sua capacidade de pensar o desenvolvimento, reindustrializar sua economia e enfrentar suas desigualdades históricas, esse tipo de discurso atua como um freio invisível:
- Ele não confronta — acomoda; não mobiliza — apazigua;
- E, principalmente, não transforma — adapta o indivíduo a realidade posta – extremamente injusta.
É por isso que não se pode tratar esse fenômeno como inofensivo.
Ele faz parte de um ecossistema maior, onde ideias aparentemente neutras ajudam a sustentar projetos políticos que rejeitam o desenvolvimento nacional, a soberania e a justiça social:
- Enquanto o Brasil precisa de consciência crítica, organização coletiva e um projeto de futuro;
- O que se oferece é introspecção despolitizada e soluções individuais para problemas que são, em essência, coletivos.
A eventual candidatura de Augusto Cury não surge, portanto, como um fato isolado ou meramente circunstancial — mas como a agudização de tudo aquilo que sua obra já representa no plano simbólico e ideológico.
Ao transpor para a arena política o mesmo arcabouço discursivo que o consagrou no mercado editorial, o que se tem não é uma novidade, mas a amplificação de um projeto:
- A transformação da complexidade social em narrativa individual;
- Agora aplicada à gestão do próprio país.
Nesse cenário, o risco deixa de ser apenas cultural ou subjetivo e passa a ser institucional:
- A lógica que reduz o sofrimento humano a falhas individuais;
- Que despreza mediações coletivas e ignora as estruturas econômicas e sociais;
- E que, quando elevada à condição de projeto político, reforça exatamente aquilo que mantém o Brasil preso a um ciclo histórico de dependência.
Há uma recusa em enfrentar problemas estruturais com soluções estruturantes:
- Ao invés de um povo mobilizado por um projeto nacional, soberano e desenvolvimentista;
- Constrói-se uma sociedade voltada para dentro de si, culpabilizada, dispersa e incapaz de reconhecer as engrenagens que condicionam sua própria existência.
É a vitória da adaptação sobre a transformação – e, no limite, da subserviência sobre a soberania.
Por isso, mais do que uma candidatura, o que está em jogo é a consolidação de uma visão de mundo:
- Uma visão que anestesia a crítica e esvazia o debate público;
- E contribui diretamente para a manutenção de um Brasil dependente, periférico e distante de sua verdadeira pujança.
É preciso muita atenção contra esse tipo de projeto — silencioso, sofisticado e profundamente funcional aos interesses contrários ao desenvolvimento nacional — sendo necessário e urgente reafirmar a necessidade de consciência crítica, organização coletiva e soberania.
Em síntese, não é apenas de mais uma candidatura que estamos falando, mas da tentativa de transformar a resignação em projeto de país — uma lógica que despolitiza o sofrimento, fragmenta a consciência coletiva e serve aos interesses de quem lucra com um Brasil dependente, desorganizado e incapaz de realizar seu potencial, quando o que se exige é um Estado forte, capaz de planejar o desenvolvimento, promover justiça social e afirmar a soberania nacional.

