FUNDAÇÃO DO PTB

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Em 15 de maio de 1945 nascia o Partido Trabalhista Brasileiro, não apenas como uma legenda eleitoral, mas como a expressão política de uma transformação profunda que atravessava o Brasil.

O velho país agrário, marcado pelas cicatrizes da escravidão e pelo poder oligárquico, começava a ver crescer suas cidades, suas fábricas e, sobretudo, uma nova força histórica: o trabalhador urbano organizado. Foi nesse encontro entre a emergência do proletariado industrial e o projeto nacional conduzido por Getúlio Vargas que surgiu o PTB, o mais sólido partido de massas da história brasileira até ser esmagado pela ditadura instaurada em 1964.

O trabalhismo nasceu como uma ruptura histórica. Em uma sociedade construída sobre séculos de exploração escravista, colocar o trabalho no centro da vida política significava alterar a própria estrutura moral da Nação. Getúlio e os homens da Revolução de 1930 compreenderam que não haveria independência real sem povo integrado à vida nacional, sem direitos sociais, sem proteção ao trabalhador e sem soberania econômica. O operário, o camponês, o funcionário público, o pequeno empregado urbano deixavam de ser apenas mão de obra descartável para tornar-se sujeito político e parte constitutiva do destino brasileiro.

Muito antes da fundação formal do PTB, as sementes do trabalhismo já estavam presentes no programa da Aliança Liberal. Ali apareciam propostas que, para o Brasil oligárquico da época, tinham caráter quase revolucionário: a expansão do ensino público e técnico, a criação de um Ministério da Educação e Saúde e, sobretudo, a instituição do Ministério do Trabalho para defender o operariado urbano e rural. Não eram medidas isoladas. Eram os primeiros contornos de um projeto nacional que entendia o povo como riqueza estratégica da Nação.

O trabalhismo organizou-se sobre dois pilares inseparáveis: o trabalho e o nacionalismo. O primeiro afirmava a dignidade humana de quem produz; o segundo compreendia que nenhuma política social sobreviveria em um país subordinado aos interesses estrangeiros.

O nacionalismo trabalhista não era um discurso abstrato: era o elo capaz de unir a sociedade brasileira acima das divisões impostas pela dependência econômica e pelo atraso histórico. Defender o petróleo, a indústria nacional, a educação pública e os direitos trabalhistas era, ao mesmo tempo, defender a soberania do Brasil.

Por isso o PTB ultrapassou as fronteiras partidárias e tornou-se uma das maiores experiências populares da América Latina. Sua trajetória dialogava com as grandes correntes nacionais e populares do continente, aquelas que buscavam afirmar a independência econômica e política diante do imperialismo e das elites locais associadas ao capital estrangeiro. O trabalhismo brasileiro fazia parte de uma mesma esperança latino-americana: a construção de países soberanos, industrializados e socialmente integrados.

A violência empregada contra esse projeto revela justamente sua força histórica. O golpe de 1964 não destruiu apenas um governo; buscou interromper a possibilidade de um Brasil organizado em torno do trabalho e da soberania nacional.

Ainda assim, mesmo no exílio e na perseguição, o trabalhismo sobreviveu. Em 1979, em Lisboa, trabalhistas, nacionalistas e democratas de diversas origens reuniram-se sob a liderança de Leonel Brizola para lançar a Carta de Lisboa, documento que procurava reconstruir as bases do PTB após a anistia e restabelecer a continuidade histórica do projeto interrompido pela ditadura.

Mas o regime compreendia o peso simbólico daquela tradição. A manobra conduzida por Golbery do Couto e Silva, entregando a sigla histórica a Ivete Vargas, procurou fragmentar e descaracterizar o legado trabalhista. Ainda assim, não conseguiu apagar sua memória popular nem sua influência sobre gerações inteiras de brasileiros.

O trabalhismo legou ao país alguns de seus maiores líderes e intérpretes: João Goulart, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e o próprio Getúlio Vargas. Mais do que nomes individuais, eles representaram a tentativa de construir um Brasil capaz de unir desenvolvimento econômico, justiça social e soberania nacional.
Talvez por isso a história do PTB permaneça atual. Porque o Brasil continua diante da mesma encruzilhada histórica: ou organiza sua vida nacional em torno do trabalho, da educação, da indústria e da soberania, ou permanece submetido a uma lógica em que suas riquezas são vendidas, loteadas e entregues aos interesses externos e às elites que nunca aceitaram plenamente a entrada do povo na política. O trabalhismo foi, e continua sendo para muitos, a lembrança de que a Nação só alcança sua plenitude quando o povo trabalhador deixa de ser margem e torna-se centro da história.

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