O último enquadramento da Condessa Orloff. Por Rubens Gennaro

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condessa
Original em: https://hojepr.com/o-ultimo-enquadramento-da-condessa-orloff/

São Petersburgo, inverno de 1918. A neve caía sobre os telhados da antiga capital dos czares, cobrindo de branco as ruas por onde ainda ecoavam os passos incertos de uma Rússia que tentava inventar o próprio futuro. A revolução bolchevique havia derrubado o mundo dos palácios, mas não conseguira apagar, de um dia para o outro, a memória de seus salões, de seus espelhos e de seus amores secretos.

Naquela manhã gelada, o jovem cineasta Serguei Eisenstein encontrava-se diante de uma decisão que lhe parecia maior do que uma simples escolha de locação. Tinha diante de si o apartamento da condessa Katia Dimitrieva Orloff, remanescente de uma família ligada à antiga aristocracia imperial. O lugar, por si só, já constituía uma contradição: um vestígio do mundo que a revolução pretendia sepultar, oferecido ao olhar de um artista que acreditava na construção de uma nova sociedade.

Eisenstein era jovem, inquieto e bolchevique. Trazia na cabeça imagens que ainda não existiam, cortes que haveriam de revolucionar a linguagem cinematográfica e uma confiança quase temerária no poder das imagens para transformar a consciência humana. Entretanto, diante daquela porta, hesitava.

Seria possível filmar ali? Seria justo levar uma câmera revolucionária para dentro de um apartamento onde cada móvel, cada cortina e cada retrato pareciam guardar a saudade de um império desaparecido? Ou a beleza daquele cenário acabaria traindo a causa que ele desejava servir?

A condessa Katia, por sua vez, observava o visitante com a serenidade de quem já perdera quase tudo, exceto a dignidade. Não precisava conhecer os manifestos revolucionários para compreender que o mundo de sua família chegara ao fim. Bastava-lhe olhar pela janela e contemplar as bandeiras, os soldados e as multidões que atravessavam a cidade.

O apartamento, contudo, permanecia intacto em sua delicada resistência ao tempo..

Eisenstein caminhou lentamente pela sala.

Deteve-se diante de uma poltrona, recuou alguns passos, inclinou a cabeça e tornou a avançar. Não examinava os móveis como um visitante curioso, mas como quem procura uma passagem secreta entre a realidade e a poesia.

A luz que atravessava a janela desenhava uma faixa oblíqua no assoalho. O encosto de uma cadeira projetava uma sombra sobre o tapete. O espelho devolvia, numa perspectiva inesperada, a imagem do piano e das cortinas. Tudo parecia obedecer a uma composição invisível, como se algum pintor antigo houvesse organizado o cenário para uma cena que esperava, havia anos, pela chegada de sua câmera.

O cineasta percebeu, então, que não estava diante de um simples apartamento aristocrático. Estava diante de uma imagem do tempo.

Ali, o passado não se apresentava como uma tese política, tampouco como uma defesa da nobreza derrotada. Era matéria humana: solidão, beleza, perda, esperança. Aquelas paredes poderiam contar, sem uma palavra, a história de uma civilização que desaparecia enquanto outra tentava nascer. Mas a dúvida persistia.

Filmar aquele ambiente significaria preservar a memória de uma classe social que a revolução condenava? Ou seria justamente a oportunidade de mostrar que nenhuma revolução, por mais radical que fosse, poderia destruir tudo aquilo que os seres humanos haviam criado de belo? Eisenstein voltou os olhos para a condessa.

Katia permanecia próxima à janela. A luz fria tocava-lhe o rosto, acentuando a expressão de uma mulher que parecia viver entre duas épocas: uma que já não existia e outra na qual talvez jamais encontrasse lugar.

Por um instante, o jovem diretor esqueceu os programas políticos, as urgências da revolução e as discussões sobre o cinema que desejava realizar. Imaginou aquela mulher atravessando o salão numa noite de baile, quando os lustres iluminavam os convidados e a música fazia esquecer, por algumas horas, que até os impérios têm prazo de validade.

Imaginou também o mesmo salão vazio, anos depois, com o piano silencioso e as cortinas imóveis.Entre essas duas imagens cabia um filme inteiro.

Talvez fosse esse o verdadeiro poder do cinema: reunir, num mesmo enquadramento, aquilo que a história separa para sempre.O cineasta pediu que abrissem um pouco mais as cortinas. A luz mudou. O espelho capturou o reflexo do piano, e a poltrona, antes deslocada, encontrou seu lugar exato na composição. A condessa acompanhou os movimentos em silêncio. Eisenstein observou novamente o conjunto.

A decisão estava tomada. Aquele apartamento seria utilizado como cenário.

Não por fidelidade ao império, nem por desobediência à revolução, mas porque a beleza, quando alcança sua forma mais elevada, deixa de pertencer aos vencedores e aos vencidos. Pertence à humanidade — essa criatura contraditória que derruba palácios pela manhã e, à noite, procura abrigo na poesia.

Talvez a condessa tenha compreendido a escolha como uma pequena vitória sobre o esquecimento. Talvez Eisenstein tenha percebido que a nova Rússia precisaria, cedo ou tarde, olhar para trás, nem que fosse apenas para entender a profundidade do caminho percorrido . Naquele inverno, a câmera teria podido registrar o encontro improvável entre dois mundos: o de uma aristocrata cercada pelas lembranças de sua linhagem e o de um cineasta revolucionário que procurava imagens para o futuro.A película guardaria a luz, os móveis, as sombras e a expressão daquela mulher. O tempo acrescentaria o que nenhuma câmera poderia prever. Mas isso não diminui a força da imagem.

Ainda podemos imaginar a câmera de Eisenstein avançando lentamente pelo salão, a neve escorrendo pelo vidro e Katia Orloff permanecendo imóvel junto à janela. Um último raio de luz tocaria o espelho, percorreria o piano e repousaria sobre o rosto da condessa.

Então, a imagem escureceria. E nós, espectadores de um filme que talvez nunca tenha sido filmado, compreenderíamos que existem perdas que nem a revolução, nem a guerra, nem o tempo conseguem explicar inteiramente.Porque certos cenários desaparecem, certas vidas se calam e certas histórias jamais chegam às telas.

Mas a beleza de um enquadramento pode sobreviver até mesmo ao filme que não tivemos a oportunidade de ver.

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