TERRITÓRIO E ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS: TALVEZ O POBRE NÃO SEJA DE DIREITA NO PARANÁ. Por Josemar Ganho

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Resumo

A expressiva votação da direita no Paraná costuma alimentar a percepção de que o conservadorismo predomina também entre os mais pobres. Este artigo propõe examinar essa leitura a partir do território, aproximando o mapa da votação presidencial do segundo turno de 2026 dos estudos dos Planos Regionais de Desenvolvimento Estratégico do Paraná (PRDE), apoiados nas análises do IPARDES. O foco é o Centro Expandido, recorte de planejamento que reúne áreas historicamente marcadas por vulnerabilidade social e menor dinamismo econômico. A comparação sugere aproximações entre esses territórios e parte dos municípios onde Lula alcançou maior apoio proporcional. Em diálogo com a discussão de Jessé Souza sobre o “pobre de direita”, o texto questiona generalizações e investiga como desigualdade, pertencimento e organização social podem participar das escolhas políticas, sem confundir resultados municipais com o comportamento individual dos eleitores. 1 Josemar Ganho é contador e auditor independente, com mais de vinte e nove anos de atuação profissional, destacando-se nas áreas de auditoria, prestação de contas, reorganização contábil e governança institucional, especialmente no âmbito de entidades sem fins lucrativos, sindicatos, federações e organizações representativas. Possui formação em Ciências Contábeis, pós-graduação em Auditoria e créditos de mestrado em Gestão Urbana, reunindo sólida base técnica, normativa e institucional. Ao longo de sua trajetória, atuou em auditorias independentes e especiais, auditorias de balanço, levantamentos patrimoniais, diagnósticos contábeis e processos de saneamento financeiro, com forte ênfase na implantação de práticas de transparência, conformidade e responsabilidade institucional. Paralelamente à atuação técnica, desenvolve produção intelectual interdisciplinar que articula contabilidade, governança, filosofia, teoria da complexidade e impactos sociais da inteligência artificial. É autor e organizador de diversas obras técnicas e ensaísticas, voltadas à análise institucional, à reflexão socioeconômica e à investigação filosófica contemporânea. Integra e coordena iniciativas voltadas à produção de conhecimento e inovação, como projetos de pesquisa e reflexão crítica sobre sociedade, tecnologia e organização institucional, destacando-se sua participação na construção de espaços de estudo e difusão do conhecimento, entre os quais o Observatório Social Brasileiro de Inteligência Artificial e o Parque Científico Tecnológico Vilah 7 Curvas. Sua produção intelectual busca articular rigor analítico, interpretação histórica e reflexão crítica sobre a realidade social brasileira, situando-se na convergência entre prática profissional, pensamento teórico e compromisso com o debate público. 1 O Centro Expandido, as desigualdades regionais e a geografia do voto em Lula O Paraná costuma aparecer no debate político como um estado conservador, identificado com o agronegócio e com uma expressiva votação na direita. O resultado presidencial de 2026 reforça essa imagem, mas não encerra a discussão. Quando observamos o território, encontramos diferenças que a soma estadual esconde. O confronto entre o mapa eleitoral e os estudos de desenvolvimento regional permite formular uma hipótese: parte importante da resistência eleitoral ao bolsonarismo aparece justamente em áreas historicamente marcadas pela pobreza e pela menor participação nos benefícios do desenvolvimento. Essa aproximação convida a dialogar com a expressão “pobre de direita”, discutida por Jessé Souza. O fenômeno existe e merece investigação. Entretanto, sua transformação em explicação geral pode obscurecer outra realidade: há populações de baixa renda que continuam reconhecendo em Lula uma representação política de suas necessidades e expectativas. No Paraná, compreender essa diversidade exige olhar para os diferentes territórios que compõem o estado. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 3.945.345 votos, correspondentes a 59,91% dos válidos, enquanto Lula obteve 2.054.597 votos, ou 31,20%. No segundo, Flávio alcançou 4.291.444 votos e 62,58%; Lula chegou a 2.566.504 votos e 37,42%. Considerando os percentuais publicados, Lula avançou 6,22 pontos percentuais, contra 2,67 de seu adversário. Acrescentou também mais votos: 511.907, diante de 346.099. A maioria conservadora permaneceu, mas conviveu com uma ampliação expressiva da votação petista. Esses saldos, contudo, não identificam de quais candidaturas ou grupos sociais vieram os novos votos. O resultado estadual precisa, portanto, ser aberto. Há diferenças entre os grandes centros urbanos, os municípios rurais, as áreas de agricultura familiar e as regiões com menor dinamismo econômico. É nesse ponto que o conceito de Centro Expandido oferece uma contribuição decisiva. Centro Expandido é uma categoria de planejamento regional presente nos Planos Regionais de Desenvolvimento Estratégico do Paraná, os PRDE, apoiados nos estudos do IPARDES sobre as desigualdades territoriais. Nesse contexto, a expressão identifica um amplo recorte que reúne áreas socialmente críticas do centro do estado e incorpora partes do Noroeste, Norte Pioneiro e Vale do Ribeira. Sua finalidade é orientar estratégias de inclusão social e econômica e dar atenção às regiões menos favorecidas pelo desenvolvimento. Assim, a expressão pode ser apresentada como um conceito do planejamento PRDE/IPARDES voltado à identificação e ao enfrentamento das desigualdades das regiões mais deprimidas do estado. Isso não significa que cada município de seu interior seja igualmente pobre, nem que todas as áreas pobres do Paraná estejam contidas nesse recorte. Trata-se de uma região de intervenção estratégica, com diferenças internas, definida para enfrentar desequilíbrios históricos. O mapa de “Ações Macrorregionais” apresentado neste artigo torna essa proposta visível. A faixa denominada Centro Expandido atravessa uma extensa porção do território, articulando áreas afastadas dos principais polos de concentração econômica. Sua leitura ajuda a questionar a imagem de um Paraná uniformemente próspero: o crescimento estadual não se distribui de maneira homogênea entre municípios, grupos sociais e atividades produtivas. Centro Expandido do PRDE ao lado do mapa de votação do segundo turno, com legendas e percentuais estaduais para facilitar a comparação territorial. O mapa de “Famílias Pobres”, produzido no âmbito do convênio PARANACIDADE/IPARDES/UFPR, acrescenta uma distinção fundamental. Com dados referentes a 2000, ele diferencia municípios segundo a proporção e o contingente de famílias pobres. Um município pequeno pode ter uma parcela muito elevada de sua população na pobreza; uma cidade grande pode apresentar proporção menor e, ainda assim, reunir um número absoluto muito maior de famílias pobres. São situações distintas, que demandam respostas públicas diferentes. Essa diferença também importa na interpretação eleitoral. A votação de um município com elevada proporção de pobreza não pode ser comparada de maneira simplista à de uma grande cidade. Além disso, o mapa social retrata uma situação histórica: seus dados não devem ser apresentados como uma medição da pobreza em 2026. Sua contribuição está em revelar a configuração das desigualdades que fundamentou o planejamento regional e oferecer uma referência para investigar permanências e mudanças. Ao aproximar esse material do mapa eleitoral, observam-se agrupamentos de municípios favoráveis a Lula na faixa central e centro-sul, além de ocorrências no Sudoeste e em outras partes do estado. A correspondência é parcial, mas merece atenção. Exemplos concretos ajudam a situar a discussão: Município Votação de Lula no segundo turno de 2026 Rio Bonito do Iguaçu Pinhal de São Bento Foz do Jordão Laranjal Nova Tebas Pinhão Goioxim Nova Laranjeiras 64,22% 61,47% 59,11% 58,74% 57,24% 56,09% 54,61% 52,99% Esses municípios ilustram áreas de força relativa de Lula; a seleção não constitui um ranking dos maiores percentuais de todo o estado. Também há resultados que impedem uma associação automática entre posição territorial e escolha eleitoral: em Guarapuava e Pitanga, por exemplo, a maioria foi de Flávio Bolsonaro. O território apresenta tendências e contrastes, não uma identidade 4 | P á g i n a política única. Outro cuidado é distinguir percentual e quantidade de votos. Um pequeno município pode dar ampla maioria a Lula e contribuir com poucos milhares de votos. Curitiba, mesmo com vitória de seu adversário, entregou ao petista 425.092 votos no segundo turno. Por isso, identificar onde Lula foi proporcionalmente mais forte é uma pergunta diferente de identificar onde recebeu mais votos em números absolutos. Ambas são necessárias para compreender sua base eleitoral. Há ainda uma dimensão social relevante nos próprios documentos do PRDE. A seção “Base Econômica e Social” registra, para o período estudado, aproximadamente 58% dos assentamentos rurais do Paraná no Centro Expandido, reunindo cerca de 62% da área dos assentamentos e 60% das famílias assentadas. Esses números são históricos, mas mostram que o recorte também abrange territórios marcados pela luta pelo acesso à terra e pela construção de formas de sobrevivência na agricultura familiar. Essa informação abre uma hipótese interpretativa. Onde existem experiências de organização comunitária, associações, sindicatos e movimentos sociais, a precariedade pode ser compreendida como um problema coletivo, sujeito à ação pública. Nessas circunstâncias, o voto pode expressar vínculos construídos em torno da terra, do trabalho e dos direitos. A presença dessas organizações e sua influência eleitoral, porém, precisam ser verificadas em cada realidade, e não presumidas apenas pela localização no mapa. O diálogo com O pobre de direita ganha profundidade justamente aí. A contribuição de Jessé Souza está em chamar atenção para o reconhecimento, o pertencimento e as experiências de humilhação que participam da formação das escolhas políticas. A condição econômica não produz, por si só, uma consciência política uniforme. Pessoas submetidas a dificuldades semelhantes podem interpretar suas experiências de maneiras muito diferentes. O mesmo raciocínio deve valer para compreender o apoio popular à esquerda. Ser pobre e votar em Lula não equivale automaticamente a possuir uma consciência de classe consolidada. O voto pode reunir avaliação de governos, memória de melhorias materiais, identificação pessoal, vínculos comunitários e expectativas de proteção social. Tampouco votar na direita autoriza tratar o trabalhador como alguém incapaz de compreender sua própria vida. 5 | P á g i n a A expressão “pobre de direita” perde capacidade explicativa quando se transforma em julgamento moral. Em vez de perguntar por que o pobre não vota como supostamente deveria, é mais produtivo investigar como ele interpreta o trabalho, a insegurança, a religião, os serviços públicos e suas possibilidades de futuro. Essa pergunta exige escuta e conhecimento das relações sociais concretas. Também seria precipitado afirmar, com base nesses mapas, que os pobres do Paraná são majoritariamente de esquerda. Incorreríamos na chamada falácia ecológica: atribuir aos indivíduos uma característica observada no conjunto de um município. Uma localidade com muita pobreza e maioria de votos em Lula não revela, isoladamente, como votaram seus moradores mais pobres. Para testar essa relação, seria necessário cruzar os resultados municipais com indicadores sociais atualizados, examinar exceções e recorrer a pesquisas sobre os próprios eleitores. O que os materiais permitem sustentar é uma hipótese territorial relevante: há aproximações entre áreas historicamente identificadas como socialmente críticas e parte dos municípios em que Lula apresenta maior força relativa. A comparação visual oferece um ponto de partida para a pesquisa, sem constituir uma correlação estatística já demonstrada. A consequência política dessa leitura é concreta. O enfrentamento das desigualdades exige políticas de desenvolvimento regional que articulem geração de renda, agricultura familiar, educação, saúde, infraestrutura e participação social. O diagnóstico do Centro Expandido ajuda a reconhecer onde essas necessidades se acumulam e por que o crescimento econômico estadual pode conviver com experiências persistentes de abandono. O Paraná conservador das urnas contém outros Paranás. Entre eles, há territórios populares que mantêm apoio a Lula e experiências coletivas que merecem ser compreendidas. O pobre de direita faz parte dessa realidade, mas não a resume. Talvez o primeiro passo para entender o voto popular seja abandonar a expectativa de encontrar uma única identidade política entre pessoas cujas condições de vida, embora próximas na renda, são atravessadas por histórias e relações muito diferentes.

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